sábado, 2 de setembro de 2017

Crônicas e Cólicas.03

violência e descaso, havia os momentos festivos comemorativos onde todos pareciam fraternos e amorosos,faziam alusão ao nome familiar como se fossem nobres vindos de outras terras, era uma maneira que tinham para usarem máscara, fui pegando nojo do sobrenome que estava carregando como se fosse uma corrente maldita na minha existência.
Sem precisar descrever os momentos íntimos do meu casamento que foram o meu maior pesadelo, engravidei novamente, com isso veio uma menina no final de dezembro de 1974, tão branquinha e loira como os irmãos, nem parecia que eram meus,houve uma trégua, porque ele tinha à atenção voltada para o seu próprio endeusamento, era cortejado e cortejava abertamente, mulheres  que agora vinham até ele para aconselhamento pessoal, pois havia se tornado um líder espiritual Umbandista, e a vaidade fazia com que se sentisse num pedestal, onde tudo podia na arte da sedução, no que era bem profissional.
Quando a brincadeira se fizesse cansativa, ele se lembrava de mim, seu alvo preferido pra descontar as suas frustrações, ai invertia os fatos, me acusou de traí-lo, de ter outros homens, tornou obsessivo esse seu comportamento, quando eu saia na volta ele me obrigava a ser examinada em minha partes íntimas, se eu me recusava era agredida com socos no estômago o que me paralisava os sentidos pela dor intensa, isso era sempre no nosso quarto constantemente, quando ele chegava do bar onde ficava bebendo e jogando bilhar na esquina de casa, arrumava amantes para mim, me ofende, me maltratava fazendo comparações com o comportamento da minha mãe, que trai descaradamente seu novo marido( o terceiro), me comparando com ela, isso começou a desenvolver em mim um ódio dele, pensei até em acabar com minha própria vida, estava sem saída, sem amparo.Eu começei a tomar anticoncepcional Novulon, que estava em fase de teste, mesmo assim comecei a tomar, até que ele disse que assim era mais fácil eu poderia traí-lo, jogando os comprimidos no vaso sanitário e dava descarga, revirava minhas coisas para ter certeza que eu não estava escondendo mais cartelas dos comprimidos.
Novamente ele usava a estratégia de trazer flores e pedir perdão, prometendo que ia mudar, acabava aceitando, eu não tinha pra onde ir mesmo. durante um tempo as coisas ficavam amena, mas logo voltava a mesma rotina, eu não via o tempo passar pois além de cuidar da casa e dos meus filhos comecei a ganhar algum dinheiro fazendo bolos de casamento para fora, isso me distraia e me trazia algum retorno financeiro, que no qual me dava muito prazer em dar mimos aos meus filhos. Me apeguei em uma fé de seguimento espírita o Candomblé, para aliviar e dar respostas aos meus sofrimentos e força para mudar a minha vida. Fui conseguindo a reagir aos seus desmandos,  com isso sai da minha casa depois de outra agressão, uma família amiga minha me acolheu, mas com o passar dos dias ele foi atrás de mim, pedindo perdão, eu estava grávida pela quarta vez, e depois de tanta insistência acabei voltando.Fiquei horrorizada quando uma noite ele me levou em um médico, e chegando lá queria me convencer a abortar, porque senão o pessoal ia pensar que o filho que eu estava esperando não era dele. Chorei muito e diante do médico eu falei que não faria o aborto, porque não tinha nada o que esconder, o médico então o chamou na sala e disse que se o filho não fosse dele o interesse maior em interromper a gravidez era meu, e que ele não faria o procedimento sem o meu consentimento.Meu marido ficou sem graça, pediu desculpas e fomos pra casa.
Por ironia do destino em 1977 nascia minha filha, morena como eu e os meus familiares, os outros três eram loiros como ele e sua família, isso foi o bastante para o povo  dele murmurar o resto da vida, mas qual foi a minha surpresa, da felicidade dele com a menina, e o apego dos dois que gerou muito ciúmes por parte dos outros.
Nesse meio tempo, o desejo de ir embora, continuava no meu coração, e ele sabia disso, aproveitava para continuar o seu  plano, agora pra me destruir, dizia que preferia chorar no meu túmulo do que me ver solta para que outros pudessem usufruir.

Teve um fato que a arma dele havia desaparecido, Ah… esqueci de mencionar, ele era policial militar, que trabalhava na manutenção dos carros da corporação, e na época em plena Ditadura, ele fez uma denúncia que eu ajudada por uma amiga da minha mãe(que nós a chamávamos de dona Lúcia, uma mulher que também pra escapar da violência do marido havia se mudado para perto de nós com seus 8 dos 10 filhos, no qual ela sustentava com minha ajuda e do seu trabalho de faxina, me conheceu pequena antes da separação dos meus pais, eu a considerava minha tia)  me auxiliava nos trabalhos domésticos, tínhamos pego a arma, não só a dele como outras e entregue aos meus amigos que frequentavam a mesma casa de Candomblé que eu fazia parte, que eram Comunistas que estavam escondidos lá. Fui pela primeira vez conduzida ao Serviço de Informação da Polícia Militar e passei por vários interrogatórios e fui ameaçada que seria entregue ao DOPS (Departamento de Ordem Social e Política) caso essa arma ou outras não fossem encontradas, O terreiro que eu frequentava foi invadido e vasculhado,  ninguém sabia o que estava acontecendo, muito menos eu. Foram três dias que para mim pareciam eternos,nunca questionei com quem ficou com meus filhos na minha casa, Após esses dias, fui liberada junto com minha amiga, porque a arma havia aparecido, foi uma brincadeira de mau gosto que um amigo dele sargento do Corpo de Bombeiros chamado Sérgio(um outro espancador de mulher, a esposa dele também sofria com constantes agressões)que frequentava a nossa casa, fez, escondendo para ajudar ele me dar um corretivo, só não esperava que o que ele fez teria esse desfecho, ficou com medo de ser envolvido e por isso devolveu a arma pra ele.

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SAUDADE É A MEMORIA QUE NÃO MORRE.

A SAUDADE É O QUE FICA DAQUILO QUE PARTIU, DAQUILO QUE JÁ NÃO É MAIS.SAUDADE É AUSÊNCIA, É O SENTIMENTO DE VAZIO QUE FICA DE QUEM SE FOI....